Era uma sexta-feira chuvosa e fria, com ventos desérticos daqueles conhecidos aqui no sul como minuano ou simplesmente vento-sul. Essa combinação fazia qualquer vivente renguear ao sabor destas intempéries. Eu me dirigia ao 36º Rodeio Nacional no CTG Os Praianos, em São José, aqui mesmo em Santa Catarina. Aconteceria lá um show de César Oliveira e Rogério Melo, dueto de música gaúcha que eu gosto e acompanho. Já estava sabendo que os preços para se “manter” dentro do CTG eram altos, um simples sanduíche de entrevero (comida típica gaúcha e região serrana catarinense) não saía por menos de 7 reais. E quando falo sanduíche falo de duas fatias de pão com alguns gramas de carnes diversas — o que caracteriza o prato.
O que não me agradava muito era gastar com estacionamento. Caramba, já estou pagando 10 reais simplesmente para estar lá, mais uns 50 pilas iriam ficar lá entre alimentação e umas coca-colas e petiscos, precisaria desembolsar mais 10 pratas para deixar o carro seguro? Se você vai num evento qualquer, estacionamento normalmente está no pacote de entrada. Enfim…
Tentando driblar as poças d’água e o lamaçal instaurado naquele lugar, eis que acho uma nota de R$5 quase encoberta pelo banhadal. Naquele instante olhei para um lado, olhei para o outro, na negativa de que ninguém estava acompanhando-me com uma câmera para uma possível pegadinha, agachei e capturei o exemplar de Garça quase afogada no meio de tanta água.

Eu tinha duas opções. A primeira era ajudar a pagar o salgado preço do estacionamento. A segunda, era me dirigir à viaturas da Guarda Municipal. Então eu bati no vidro, uma guarda abriu e eu expliquei a situação. Sem saber o que fazer, ela relutou em aceitar mas já era tarde, já estava ela na posse da nota e eu virando as costas após ter avisado que eu encontrei, que não era minha e que ela tomasse as devidas providências.
Esse seria mais um momento qualquer da minha vida não fosse um post do Saber é Bom Demais, escrito pela Ester Beatriz, intitulado “Achado não é roubado” - Aspectos Éticos e Legais. Ela concorda comigo quando o assunto é honestidade e que ética não tem valor. A situação que ela passou e relatou é mais ou menos parecida.
Aprendi a devolver o que não é meu, e menos ainda fazer qualquer tipo de uso da coisa alheia, ainda na infância, quando meu pai me deu um exemplo do meu avô que nem conheci — mas que hoje merece o meu aplauso — , quando o meu genitor levou uns pipocos única e exclusivamente por ter esquecido de DIZER para o Vô Luiz que naquele dia o dinheiro para o maço de cigarros não estava completo, deixando o dono do bar para “pagar depois”.
Mas nas bandas brasileiras isso é ser otário, ser taxado de trouxa, achar algum dinheiro e não procurar o dono é coisa de gente tapada. Mal sabem os parvos, aqueles que não concordam em devolver e que “achado não é roubado”, que não procurar o dono de um bem achado por qualquer sorte é, sobretudo, crime:
Art. 1.233. Quem quer que ache coisa alheia perdida há de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor.
Parágrafo único. Não o conhecendo, o descobridor fará por encontrá-lo, e, se não o encontrar, entregará a coisa achada à autoridade competente. (Código Civil)
E que pode ter consequências sérias como:
Art. 169 - Apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Parágrafo único - Na mesma pena incorre:
I – quem acha tesouro em prédio alheio e se apropria, no todo ou em parte, da quota a que tem direito o proprietário do prédio.
II - quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias.
Já me disseram, e não faz muito, e menos ainda foi uma única pessoa, que tais atos de ética e honestidade acabarão com o tempo, que quando somos jovens pensamos diferente e coisa e tal. Até concordo que algumas coisas mudam com o tempo, mas não é questão de ter cabelos grisalhos, não é questão de sofrer na vida que te faz mudar de idéia. Meu avô, mesmo já falecido, me deixou uma herança, uma fortuna inestimável, que eu costumo chamar de vergonha na cara. E ele já tinha cabelos brancos.